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Conta cara, torneira seca: o paradoxo do saneamento que revolta Goiás e sufoca Pirenópolis

Enquanto a Companhia de Saneamento de Goiás (Saneago) aplica reajustes sucessivos autorizados pelas agências reguladoras, a população goiana lida com um contraste incômodo: pagar tarifas elevadas por um serviço que frequentemente falha. O cenário atinge seu ponto mais crítico em Pirenópolis, um dos principais polos turísticos do estado. Na cidade histórica, moradores enfrentam uma rotina de desabastecimento cíclico, gerando revolta coletiva e prejuízos econômicos.

A revolta da ‘Tarifa Fixa’ e os novos reajustes

O bolso do consumidor goiano sofreu um novo impacto recente com o reajuste tarifário de 4,8% nas contas de água e esgoto da Saneago. Segundo a estatal e o conselho regulador da AGR, a correção serve para recompor perdas inflacionárias. No entanto, o verdadeiro estopim para a indignação popular é a cobrança da tarifa básica fixa.
Usuários de todo o estado relatam receber cobranças abusivas que ultrapassam os R$ 50,00 ou até R$ 100,00 mensais mesmo em imóveis com consumo zero ou fechados temporariamente. A justificativa institucional é de que a taxa cobre a disponibilidade e a manutenção da infraestrutura de rede. Contudo, a insatisfação social escalou tanto que a Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) passou a analisar propostas de lei, como o projeto nº 16320/26, que visa proibir e eliminar progressivamente a cobrança dessa tarifa mínima desvinculada do consumo real. 
O drama de Pirenópolis: Torneiras vazias na temporada
A poucos quilômetros da capital, a histórica Pirenópolis vivencia a pior face desse sistema. O abastecimento da cidade é alvo de denúncias frequentes de moradores dos bairros Santa Luzia, Vila Matutina, Passagem Funda, Centro, e diversos residenciais periféricos. 
O padrão do desabastecimento é previsível e cruel: basta um feriado prolongado ou final de semana movimentado chegar para a água sumir das torneiras. Cidadãos acusam a concessionária de priorizar o fluxo para grandes resorts, hotéis e pousadas, deixando a população local desamparada em períodos de calor intenso. 
“É um absurdo. Todo feriado prolongado é a mesma coisa. Ficamos sem água para cozinhar ou dar banho nas crianças, e somos obrigados a comprar água mineral de galão, enquanto a conta da Saneago chega pontual e cara”, desabafa uma moradora sob a condição de anonimato. 

Além do impacto doméstico, o comércio e as casas de temporada sofrem com cancelamentos e avaliações negativas, prejudicando a economia que sustenta o município. No último feriado de Finados, por exemplo, mais de 11 bairros viram-se desabastecidos sob a justificativa oficial de manutenções emergenciais em bombas de captação e vazamentos na rede. O argumento técnico já virou piada interna na cidade, onde os moradores questionam o porquê de as “manutenções” nunca ocorrerem em dias úteis de baixa temporada. 
Infraestrutura defasada e a falta de respostas eficazes
Dados do Instituto Água e Saneamento apontam um gargalo estrutural: a cobertura de abastecimento de água tratada em Pirenópolis atende pouco mais de 62% da população local — índice muito abaixo da média estadual de 88,8%. O déficit crônico forçou até mesmo a Prefeitura de Pirenópolis a acionar judicialmente a Saneago no Tribunal de Justiça de Goiás para garantir a infraestrutura básica em novos bairros residenciais. 
Enquanto os leilões de parcerias público-privadas (PPPs) bilionárias tramitam sob alertas de sindicatos sobre novos riscos de encarecimento das faturas, a população segue refém de comunicados automáticos emitidos via canais digitais da concessionária. Em nota, a Saneago nega qualquer favorecimento a grandes empreendimentos hoteleiros e afirma que o sistema é dimensionado para variações sazonais de turismo. 
Para o goiano, a conta que não fecha é matemática e moral: pagar um dos metros cúbicos mais caros do país para, no fim das contas, ter de lidar com o som do ar saindo seco pelas torneiras.

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