A Polícia Civil do Estado de Goiás indiciou dois médicos pela morte da gestante Sofia Jacob da Cunha Macedo e de seu filho, Dante Amorim da Cunha. O caso aconteceu em 2024, quando Sofia, que tinha 22 anos, e Dante morreram na maternidade Mater Dei, em Goiânia, após a piora do quadro clínico da paciente.
A Polícia Civil também aponta, em relatório, que outros integrantes da equipe de plantonistas envolvidos no atendimento podem ter responsabilidade pela fatalidade, mas ainda não foi possível identificá-los completamente. O Ministério Público ainda não ofereceu denúncia, pois restam diligências investigativas a serem cumpridas antes dessa etapa do processo judicial.
A mãe de Sofia, Niris Quirino, acusa o hospital de negligência, de registrar incorretamente o horário da morte e pede justiça. “Eu não posso perder minha filha e o meu neto em vão!”, afirma. Em entrevista, ela relatou condutas que considera antiéticas e agressivas por parte da equipe médica durante o atendimento. Segundo Niris, Sofia sentia dores e fraqueza, mas não sabia exatamente o que estava acontecendo com ela e com o bebê.
Apesar das críticas generalizadas da família à equipe médica, com exceção de alguns profissionais, a Polícia Civil decidiu indiciar o médico plantonista do pronto-socorro à época, Guilherme Ângelo Vera Faria, e o diretor técnico, Alan Oliveira. A reportagem não conseguiu contato da defesa desses citados.
O hospital disse que ” lamenta profundamente o falecimento de Sofia Amorim e de seu filho, Dante, e reitera sua solidariedade à família. Em respeito à família e ao sigilo médico-paciente-prontuário, o hospital vem prestando todos os esclarecimentos nesse âmbito, sempre que solicitado. A grafia do nome de Sofia, entretanto, foi encaminhada errado à reportagem.
O hospital disse ainda que “acreditado pelo programa Qmentum Internacional no nível Platinum, o Hospital Mater Dei Goiânia é referência em assistência obstétrica, incluindo o atendimento a gestações de alto risco. A instituição recebe casos críticos de Goiânia e de toda a região, contamos com equipes de emergência obstétrica, anestesiologia e terapia intensiva neonatal 24h.” (Veja a nota na íntegra no final do texto).
Outras responsabilidades
O relatório também aponta que a responsabilidade penal e técnica pode se estender à cadeia de plantonistas e obstetras que participaram do atendimento e acompanharam a evolução clínica de Sofia entre os dias 25 e 26 de março de 2024. Ainda estão sendo cumpridas diligências para a identificação completa desses profissionais e o esclarecimento da participação de cada um.
O delegado Wladimir Freire disse que as maternidades estão entre os principais locais de ocorrência de homicídio culposo na região da 4ª Delegacia de Polícia, onde atua. “Aqui, é um homicídio culposo, aqui sim, se esse for o indexador, seriam as maternidades, claro. Até mesmo porque o tratamento médico é diferente”, afirmou.
Sobre especificamente a investigação relacionada a Sofia, o delegado assumiu o inquérito em fase final, mas comentou a complexidade do caso e exemplificou com o volume de documentação. “O relatório final que eu fiz deu 44 páginas. Então, deve ter sido um inquérito de mais de mil volumes”, disse.
A mãe conta que houve muitas idas e vindas ao hospital, porque Sofia se sentia mal, não conseguia se alimentar direito e apresentava variações de pressão. Entretanto, segundo Niris, a médica que estava de plantão alegava que os sintomas eram decorrentes de ansiedade e mantinha essa avaliação mesmo diante dos questionamentos da família e da própria paciente, sem solicitar exames mais complexos.
No relatório da Polícia Civil, porém, não foi estabelecido nexo causal entre as ações entre essa médica e a morte de Sofia. O documento registra a solicitação de exames como BNP, painel respiratório e raio-X.
A mãe compartilhou mais de um episódio em que a médica teria recomendado que Sofia voltasse para casa. Em um deles, Niris conta que se recusou a deixar o hospital com a filha.
“A médica queria dar alta para ela, eu falei: ‘Não! Se eu sair de casa com ela passando mal… e se ela desmaiar em casa? Vou ter que voltar com ela a UTI. Acho mais seguro passar a noite com ela aqui no hospital’”, relatou.
Sofia apresentava níveis baixos de plaquetas no sangue e havia suspeita de dengue. Segundo a família, ela recebeu aplicações de ferritina. O primeiro exame para dengue deu negativo, mas, conforme o relato, a equipe médica considerou a possibilidade de um falso negativo devido ao pouco tempo de sintomas.
A família nega que Sofia apresentasse sintomas de dengue. Após a morte, o médico infectologista, Dr. Boaventura Braz de Queiroz, analisou o prontuário da paciente e emitiu um parecer afirmando que os exames não eram compatíveis com a doença.
Além disso, a mãe afirmou em entrevista, e o marido de Sofia, Artur Ferreira, relatou em depoimento, que suspeitam de uma alteração no horário da morte de Sofia e Dante.
À Polícia Civil, o pai de Dante afirmou: “Acho que Sofia morreu antes de 9:30, pois quando toquei na mão de Sofia ela já estava enrijecida”.
“Porque a minha filha eu sei que ela já não vai viver mais, porque ela tá com o umbigo preto, ela já estava morrendo”. Em seguida, relatou: “Aí eu falei: ‘O que que nós vamos fazer para salvar o Dante?’ Não tinha obstetra de plantão”, disse Niris .
Quando entraram na UTI, segundo a mãe, o quadro de Sofia já estava muito avançado. “Já estava apresentando falência múlpipla de órgãos! Ela já estava morrendo”, compartilhou.
Ainda diante dessa situação, Niris denuncia o comportamento de outra médica da unidade. “Foi um monstro! Hedionda!”, afirmou.
Niris conta que, já na UTI, que essa outra médica pediu que Sofia se sentasse ou se levantasse. A paciente teria respondido que não conseguia, mas, segundo a mãe, a profissional repetiu o pedido outras duas vezes. A mãe afirma que a médica desconfiava de que Sofia estivesse exagerando nos sintomas.
“Essa médica fez uma tortura psicológica com a Sofia tão desproporcional. Porque ela achou que a Sofia não queria porque estava fazendo fita”, relatou, ao lembrar que a reação da filha era pelo fato de estar com medo da morte. Quando Sofia começou a piorar, segundo Niris, a médica insistiu para que a paciente mudasse de posição e ameaçou amarrá-la e intubá-la.
A mãe também relata que a médica abriu a cortina da área coletiva da UTI e pediu que outras profissionais mostrassem os tubos utilizados na intubação.
“Ela abriu a cortina de plástico da coletiva, lá da UTI coletiva, abriu e falou assim: ‘Meninas, mostrem os tubos.’ E as meninas chegaram com os tubos em duas bandejas! Aí a Sofia falou: ‘Mamãe!’ E eu falei: ‘Filha!’ Aí ela me separou da minha filha, não pude segurar na mão da minha filha”, contou.
Niris afirma que tentou permanecer ao lado da filha, mas foi retirada do local. “Doutora, eu preciso estar aqui com a minha filha, quero segurar na mão dela, quero estar com ela. ‘Para fora! Vocês vão ficar lá fora! Lá fora!’ Porque ela queria arrebentar com a Sofia, matar ela de vez”, relatou.
Em depoimento à Polícia Civil, essa médica teria afirmado que realizou os procedimentos necessários, não relatou ter ameaçado ou forçado a intubação ou a mudança de posição da paciente e disse que não tinha dúvidas de que o caso de Sofia se tratava de dengue avançada. A médica não foi indiciada.
Uma perícia realizada a pedido da família identificou a síndrome HELLP como causa da morte de Sofia. A complicação, geralmente associada à pré-eclâmpsia, provoca alterações no sangue e no fígado e pode ser identificada por exames laboratoriais. A síndrome exige acompanhamento e intervenção médica diante do risco de complicações graves para a mãe e o bebê.
Casos de morte em partos
Quando a morte encontra lugar onde deveria haver apenas vida, e aquele que deveria ser o dia mais feliz se transforma em uma tragédia inesquecível, é difícil olhar para números e analisar a situação com racionalidade. Mas, infelizmente, o caso de Sofia e Dante se soma a milhares de mulheres e bebês que morrem todos os anos por causas que poderiam ser evitadas, em muitos casos, com estrutura adequada, preparo médico e assistência humanizada.
Segundo dados do Ministério da Saúde, 92% das mortes maternas são evitáveis. A peregrinação de gestantes em busca de maternidades e a omissão de socorro estão entre os fatores que contribuem para esses óbitos. Uma pesquisa da USP indica que 55% das mortes maternas evitáveis estariam relacionadas à peregrinação. No caso de Sofia e Dante, a morte da mãe e do bebê provavelmente poderia ter sido evitada, hipótese que precisa ser confrontada com os prontuários e a investigação sobre a assistência prestada.
O atendimento ao parto exige monitoramento adequado da gestante e do bebê, especialmente diante de intervenções ou medicamentos que demandam vigilância. Falhas nesse acompanhamento podem levar ao sofrimento fetal e a desfechos graves. Por isso, é necessário investigar se os procedimentos adotados no caso de Sofia e Dante seguiram os protocolos de segurança e se houve alguma falha capaz de contribuir para a tragédia.
Hospitais também devem contar com comissões de investigação de óbitos, responsáveis por identificar as causas das mortes, apontar falhas e corrigir protocolos para evitar novos casos. A transparência dessas apurações é fundamental, assim como a cobrança por medidas preventivas.
Um precedente internacional a ser considerado é o caso de Alyne Pimentel, que levou à responsabilização internacional do Brasil pela CEDAW, órgão ligado à ONU, em razão de uma morte materna evitável associada à peregrinação e à falta de assistência adequada.
Veja a nota na íntegra do Mater Dei
O Hospital Mater Dei Goiânia lamenta profundamente o falecimento de Sofia Amorim e de seu filho, Dante, e reitera sua solidariedade à família.
Em respeito à família e ao sigilo médico-paciente-prontuário, o hospital vem prestando todos os esclarecimentos nesse âmbito, sempre que solicitado.
Acreditado pelo programa Qmentum Internacional no nível Platinum, o Hospital Mater Dei Goiânia é referência em assistência obstétrica, incluindo o atendimento a gestações de alto risco. A instituição recebe casos críticos de Goiânia e de toda a região, contamos com equipes de emergência obstétrica, anestesiologia e terapia intensiva neonatal 24h. Fonte; Jornal Opção
