O Cerrado é o segundo maior bioma do Brasil e abriga uma das maiores biodiversidades de plantas do mundo. São mais de 12 mil espécies catalogadas, muitas delas com reconhecido potencial medicinal. Usadas há gerações pela população local, essas plantas continuam presentes em receitas caseiras, chás e remédios naturais que fazem parte do dia a dia de muitas pessoas.
Antes da chegada da medicina industrializada, a cura vinha da observação da natureza. Da raiz ao fruto, diversos exemplos demonstram como as plantas do Cerrado são utilizadas para tratar enfermidades.
Veja alguns exemplos populares
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Aroeira (Astronium urundeuva): suas sementes são usadas para aliviar dor de garganta.
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Barbatimão (Stryphnodendron adstringens): a casca é famosa por seu poder cicatrizante.
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Embaúba (Cecropia pachystachya): indicada para tratar bronquites e problemas respiratórios.
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Assa-peixe (Vernonanthura polyanthes): muito usada em forma de chá para combater tosses persistentes.
De onde vem esse conhecimento
Durante boa parte da nossa história, não havia farmácias nem medicamentos industrializados acessíveis. Foi observando os efeitos das plantas — tanto os benéficos quanto os perigosos — que comunidades desenvolveram um profundo conhecimento empírico sobre quais espécies poderiam curar ou causar danos. Essa sabedoria foi transmitida de geração em geração e permanece viva em muitas regiões do Brasil.
Até hoje, é comum encontrar pessoas que recorrem a raizeiros ou bancas de ervas medicinais nas feiras para tratar sintomas do cotidiano.
A utilização de plantas medicinais precisa ser feita com responsabilidade. Nem tudo o que é natural é inofensivo. Para isso, a ciência atua como aliada.
Após essa fase, as plantas passam por testes laboratoriais que analisam suas propriedades químicas e farmacológicas. Se confirmados seus benefícios e segurança, podem se tornar fitoterápicos, drogas vegetais ou novos produtos da medicina moderna. Caso apresentem substâncias tóxicas, são descartadas para uso medicinal.
Apesar do grande potencial, tanto o conhecimento tradicional quanto a biodiversidade do Cerrado estão ameaçados. Um estudo realizado no município de Corumbá de Goiás (Milhomem & Lima, 2017) apontou que restava apenas um raizeiro na região. Em outro trabalho realizado na Cidade de Goiás (Bezerra et al., 2020), observou-se que muitas plantas utilizadas pela população são, na verdade, exóticas, ou seja, não pertencem ao bioma do Cerrado. É o caso da erva-cidreira (Melissa officinalis) e do hortelã (Mentha piperita), ambas trazidas de outros continentes, mas amplamente adotadas na cultura popular brasileira.
Felizmente, universidades e centros de pesquisa vêm se dedicando a resgatar esse conhecimento tradicional. Um exemplo é o Programa de Pós-Graduação em Recursos Naturais do Cerrado, da Universidade Estadual de Goiás (UEG), que mantém grupos de pesquisa voltados para o desenvolvimento de bioprodutos alimentícios, cosméticos e farmacêuticos a partir de espécies nativas do Cerrado.
Mesmo com tamanha riqueza, o Cerrado continua sendo destruído em ritmo acelerado. Se queremos garantir um futuro sustentável, é preciso reconhecer o valor desse bioma não apenas como paisagem natural, mas como fonte viva de saúde, ciência e cultura.
