Mesmo antes de pôr os pés em Pirenópolis (GO), Fernando Young já convivia com as imagens das tradicionais cavalhadas na Festa do Divino Espírito Santo, encenadas desde o século XIX, representando as batalhas entre cristãos e mouros na Península Ibérica. Ao voltar ao Brasil de um período na Espanha, em 2004, dividiu apartamento com o amigo Daniel Behr, que foi fotografar a festa junto com o renomado Walter Firmo. Olhando a ampliação na parede de um dos cliques de Behr, o fotógrafo nutria a vontade de registrar as cavalhadas e seus personagens, projeto adiado pelos 20 anos seguintes.
Neste período, Young trabalhou como assistente de câmera e passou a assinar a fotografia de produções audiovisuais e de publicidade, a exemplo dos longas “Chacrinha: o Velho Guerreiro” (2018, de Andrucha Waddington); “Narciso em férias” (documentário sobre o período de prisão de Caetano Veloso na ditadura militar, em 1968, dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil, em 2020); ou a primeira temporada da série “Sob pressão” (2016), da TV Globo, também dirigida por Andrucha. Em paralelo, continuou fotografando, fazendo principalmente retratos para publicações na imprensa, ensaios de moda, publicidade e capas de discos — e pela arte do álbum “Abraçaço” (2012), de Caetano Veloso, ganhou o Grammy Latino, em parceria com Tonho Quinta-feira.
Em 2024, a agenda profissional enfim permitiu que viesse a Pirenópolis fotografar as cavalhadas, tradicionalmente realizadas em três dias a partir do domingo de Pentecostes, 50 dias após a Páscoa. Após organizar os registros da primeira viagem, Young retornou no ano seguinte, resultando num conjunto que deu origem a seu primeiro projeto autoral: o livro e a exposição “Curucucu divino”, aberta ao público na última sexta-feira e em cartaz até 8 de maio, na Galeria da Gávea, na Zona Sul do Rio, da galerista Ana Stewart, com curadoria de Victor Gorgulho.
— Este projeto habitou um lugar de um desejo fotográfico dentro de mim durante anos. Tem o impacto visual mas também todo o trabalho por trás da festa. Os artesãos passam o ano inteiro fazendo as máscaras de papel machê, costurando as flores, criando os acessórios em latão para os cavaleiros e os cavalos — destaca Young. — Em 2024, fotografei o Cavalhódromo na cidade, que tem uma arquitetura colonial muito particular. Mas fui entendendo que o material poderia ter uma força maior na ausência da geografia, da arquitetura. Você passa a prestar mais atenção nos detalhes das máscaras, das vestimentas, dos aparatos dos cavalos.
A partir dessa observação, o fotógrafo decidiu montar um estúdio ao lado do Cavalhódromo, transportando para Pirenópolis uma lona de caminhão de 7 metros por 12 metros, criando um fundo infinito capaz de enquadrar cavaleiros montados. Young diz que ainda pensava se a ideia daria certo quando conversou com o fotógrafo e cineasta Walter Carvalho, que o presenteou com livros de duas referências que se destacaram com a técnica, o peruano Martin Chambí (1891-1973) e o malinês Malick Sidibé (1936-2016).
— Outro grande mestre da fotografia que fez uso magistral da lona foi (o americano) Irving Penn. É uma forma criativa de “separar” figura e fundo, e a leitura do objeto fotografado não sofre interferência. O olho vai direto para onde deve ir — avalia Carvalho. — Os lambe-lambes do Nordeste da minha infância, de alguma forma, também são pioneiros nessa técnica. Colocavam suas câmeras para fazer fotos de documentos em plena praça e usavam um fundo de tecido para isolar a pessoa do fundo. Estavam inventando uma linguagem.
Veja fotos da mostra ”Curucucu divino’, de Fernando Young
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Com 210 páginas, o livro foi dividido em três atos: o primeiro, “Divino”, traz as imagens dos cavaleiros e outros participantes da festa em contraste com o azul límpido do céu do Cerrado; “Profano”, o segundo ato, reúne fotos tiradas à noite, com flash (as únicas do projeto feitas sem o uso da luz natural), nas celebrações que seguiam noite adentro após o fim das atividades no Cavalhódromo; e o ato final, “Curucucu” (como são chamados os brincantes mascarados que animam o público), com os retratos feitos no estúdio improvisado com a lona de caminhão. Na exposição, as 44 fotos selecionadas são mostradas com os atos I e III no andar superior da galeria, e as imagens de “Profano” no andar inferior, junto de um vídeo feito no local em parceria com o colega Felipe Ovelha.
— Nas fotos do “Profano” e no vídeo dá para ter uma sensação melhor de como é a cidade na festa. Tem a missa, a celebração católica, e de repente passa uma picape tocando um eletrofunk altíssimo. Esse ato nasceu da vontade de continuar fotografando depois que a luz caía. Eu saía com o flash de improviso, não tinha mais que um minuto para fazer o clique — conta o fotógrafo. — Depois que acaba no Cavalhódromo, a festa continua nos bares e nos ranchões, com bebidas, drogas. Ia com a câmera explicando o projeto, e as pessoas se deixavam fotografar. É uma visão mais underground, com uma força estática brutal. Aquela mistura das máscaras artesanais com uma de Shrek, de plástico, feita na China. Tendo iniciado aos 15 anos com um curso na Sociedade Fluminense de Fotografia, em Niterói, Fernando Young desenvolveu, em paralelo à atuação no audiovisual, uma produção de destaque ligada aos retratos. Além de Caetano Veloso, já clicou nomes de diversas áreas, como os cantores Gilberto Gil, Milton Nascimento, Marisa Monte, Seu Jorge, Marcelo D2, Preta Gil, Jorge Benjor, Majur; atores e atrizes como as Fernandas Montenegro e Torres, Wagner Moura, Debora Bloch, Cauã Reymond, Grazi Massafera, Juliana Paes; o ex-jogador Ronaldinho Gaúcho, o surfista Gabriel Medina; e os artistas visuais Cildo Meireles e Adriana Varejão. Das celebridades, levou o desejo de fotografar os anônimos em Pirenópolis, ainda que, na maioria das vezes, com os rostos por trás das máscaras.
— Minha paixão é o retrato, desde o início. Lá em casa tinha (câmera) Super 8, aquela coisa dos pais dos anos 1970, e eu adorava desmontar e montar o projetor, ficava fascinado com aquele mistério da imagem surgindo. Minha mãe tinha um ciúme enorme, vivia brigando comigo, até entender que era capaz de montar tudo direito — recorda Young. — Na adolescência foi aquela fase mais problemática, de só querer ficar na rua, a única coisa que eu gostava de verdade era de fotografar. Aí me arranjaram uma bolsa na Sociedade Fluminense de Fotografia, logo depois, aos 17 anos, eu já consegui entrar na Casa da Foto como assistente do Luiz Garrido. Depois fui ser assistente de fotografia em cinema, e cheguei relativamente cedo a diretor de fotografia, uns anos mais tarde.
Clicada pelo amigo “Thor”, como o fotógrafo é chamado pelos mais íntimos, Fernanda Torres destaca o olhar de Young para projetos em diferentes áreas.
— Conheci Fernando numa sessão de fotos para uma revista, sem saber que nos tornaríamos amigos e parceiros. O fato de vir da fotografia dá a ele uma noção de quadro muito poderosa. Ele conhece, até por instinto, o que separa um frame banal de um enquadramento poderoso, que diga algo a respeito de um personagem. É um grande parceiro do Andrucha (Waddington, marido da atriz) e pude perceber, ao longo dos trabalhos dos dois, a maneira como ele foi se aproximando da dramaturgia, a descoberta dele de que a estética não é nada, se não contribui para o drama, para o sentimento de uma cena — enaltece Fernanda. — Esse aprendizado está lá no “Curucucu divino”, a força mítica da cavalgada, o drama épico dos cavaleiros. A beleza vem a reboque do drama, é efeito colateral, e não esteticismo vazio. Parceiro;
















